Blog ·Método Queen B

Se ninguém foi contratado pra coordenar a sua obra, quem coordena é você

Tocar a reforma direto com o pedreiro economiza o honorário de quem gerenciaria a obra. Só que o trabalho de gerenciar não some junto: ele passa a ser seu, no meio do seu expediente.

por CK7 min de leitura

Sala de jantar integrada à cozinha, com mesa de madeira maciça, bancada com banquetas, adega iluminada e trilho de spots no teto

Pototo's House, apê de 110 m² no Paraíso · foto Rodrigo de França

O guincho que não chegou

Sábado à noite, agosto. Carro parado, pane elétrica. Acionei o seguro às 21h08 e a promessa foi de até cento e vinte minutos. Às 23h53 eu continuava esperando, sozinho e com fome.

Não faltava guincho na cidade naquela noite. Faltava alguém cujo trabalho fosse fazer o guincho chegar. Tinha contrato com a seguradora, tinha prazo por escrito, tinha prestador cadastrado. Não tinha dono da execução.

Fiquei no escuro pensando numa frase que eu ouço quase toda semana de quem está prestes a reformar.

“Eu mesmo coordeno com o pedreiro”

Essa. Sempre dita com a tranquilidade de quem já resolveu o problema. E eu entendo. Você lida com prestador a vida inteira, sabe cobrar, tem WhatsApp e tem tempo. O pedreiro é bom, veio indicado pela sua prima, fez a casa dela e ficou ótimo.

Vou conceder o ponto inteiro: dá pra fazer assim. Obra pequena, um serviço de cada vez, você em casa pra abrir a porta. Já vi funcionar bem. O que decide o resultado não é a dificuldade de cada tarefa, tomada isolada. É a quantidade de gente que precisa entrar na ordem certa.

Coordenar obra é decidir na ordem certa, não ligar pra três empresas

Um apartamento de 100 m² reformado de verdade junta demolidor, pedreiro, eletricista, encanador, gesseiro, pintor, marceneiro, serralheiro, vidraceiro, instalador de piso, instalador de ar-condicionado, marmorista e a loja que atrasou o revestimento. Treze frentes, cada uma com agenda própria, prazo próprio e nenhuma obrigação de conversar com a outra.

E treze é o feijão com arroz. É a obra sem nada de especial, porque nessa lista ainda não entrou cortineiro, tapeceiro, papel de parede, automação, iluminação decorativa, o segundo marceneiro que você vai precisar porque o primeiro não faz porta de vidro, o cara do granito que não é o mesmo do quartzo, o paisagista da varanda. Cada coisa bonita que você decidir ter é mais um contrato, mais uma agenda e mais um número novo no seu celular. Não tem teto: quanto melhor a obra fica, mais gente tem dentro dela.

E cada frente dessas chega com mais de uma cabeça. O pedreiro vem com ajudante, quase sempre mais de um. A marcenaria manda um pra medir e volta com dois pra instalar. O eletricista traz o auxiliar que puxa o cabo. Agora soma quem você não contratou e mesmo assim tem que receber: o motorista do porcelanato, o motorista da bancada que vem noutro dia porque o quartzo viaja sozinho, o entregador da louça, o entregador das torneiras, o rapaz da loja que veio conferir a medida antes de liberar a produção, o técnico da assistência que voltou pra trocar o vidro trincado, o síndico querendo o comprovante do seguro, o porteiro que não deixa subir depois das dezessete.

Conta as cabeças em vez das empresas e passa de trinta com facilidade. Depois de um tempo você para de contar. E no meio de tudo isso tem uma pessoa só com a obrigação de saber quem vem amanhã: você.

Gerenciar isso é dizer quem entra em que dia, com o que já resolvido antes. É conferir se o material que chegou é o que foi especificado, antes de assentar, e não depois. É medir o que foi feito pra liberar pagamento por etapa, em vez de liberar porque sentiu simpatia pelo prestador. É atender o telefone às nove da manhã porque o gesseiro está com a placa na mão perguntando onde vai o ponto de luz, e ele não vai esperar você sair da reunião pra decidir.

Pedreiro bom executa muito bem o que alguém decidiu. A conta chega quando ninguém decidiu.

A ordem das etapas é a parte cara da obra

Elétrica e hidráulica passam antes do contrapiso. O forro fecha depois que o ponto de luz está definido, não antes. A marcenaria mede com a parede já revestida, porque o revestimento engorda a parede e come o vão que o armário ia ocupar. O box de vidro mede depois, pelo mesmo motivo.

Cozinha integrada com ilha de mármore, coifa central, trilho de spots e jardim vertical iluminado atrás da bancada

Nada disso é segredo de ofício. É sequência. E sequência não perdoa: etapa feita fora de hora te obriga a voltar na anterior, e a anterior cobra o dobro pra ser feita de novo.

E aquele ajuste de última hora, o “já que a gente está aqui, aproveita e muda essa tomada de lugar”? Antes do azulejo, custa quinze minutos. Depois do azulejo assentado, custa o azulejo, o rejunte, o pedreiro voltando e a semana que a obra não andou. A decisão foi a mesma. Só o dia mudou.

Quem responde quando o fornecedor erra

Essa é a pergunta que quase ninguém faz antes de começar, e é a que separa a obra conduzida da obra torcida.

O marceneiro chega pra instalar e o nicho não encaixa por dois centímetros. Ele diz que mediu certo. O pedreiro diz que a parede está no esquadro. Os dois estão convencidos, os dois estão parcialmente certos, e a chapa nova sai do bolso de alguém. De quem? O pedreiro não responde pela marcenaria. O marceneiro não responde pelo gesso. A loja responde pelo produto, mas o frete é terceirizado, e o terceirizado não responde por nada.

Quarto com painel de marcenaria na cabeceira, nicho corrido com miniaturas, luminária embutida no forro e cortina de linho

Você fica no meio, sem projeto executivo na mão pra sustentar o que foi combinado, decidindo no susto, com a obra parada e todo mundo olhando pra você esperando resposta. Não é falta de competência sua. É que essa função tem nome, tem método e ocupa o dia inteiro de alguém.

Gerenciar é ser essa pessoa. É por isso que a etapa existe no nosso método com responsabilidade técnica registrada, cronograma, contratação, visita, medição e pagamento amarrado à entrega. E é por isso que a gente construiu um sistema próprio pra isso, a Héxia, onde cada etapa, cada fornecedor, cada medição e cada pagamento da sua obra ficam registrados no mesmo lugar. Obra não se segura com planilha solta e grupo de WhatsApp. A Queen B não segura colher de pedreiro e não vende marcenaria: a gente projeta, especifica e conduz quem executa. Quando o erro aparece, e ele aparece em toda obra, existe alguém com o projeto inteiro na cabeça pra decidir por onde sai mais barato consertar.

O honorário que você acha que está economizando

Quando você decide não contratar ninguém pra gerenciar, a conta que aparece na cabeça tem duas colunas. De um lado, o honorário do escritório que conduziria a obra. Do outro, zero, porque você não vai pagar ninguém pra isso.

A segunda coluna nunca é zero. Ela só não vem escrita em lugar nenhum.

O que está escondido nela é o retrabalho de uma etapa feita fora de ordem, mais os seus dias de trabalho parados pra atender fornecedor no telefone, em vez de estar ganhando dinheiro ou descansando com a sua família, mais o preço das decisões que você vai tomar às pressas, com três pessoas na obra esperando a sua resposta pra continuar. Seu tempo não é de graça só porque ninguém emite nota dele.

Talvez a sua obra seja daquelas que caberia na primeira conta. Tem obra que cabe. Se você tem escopo curto, agenda livre e alguém de confiança tocando um serviço de cada vez, toca. Sério. O que não dá é decidir isso por dedução, no dia em que a demolição já começou e o cronograma virou uma sequência de improvisos costurados por telefone.

A vida é um eterno gerenciamento

O guincho apareceu quase à meia-noite, e o rapaz que veio era ótimo no que faz. Ele me contou que a mensagem pra me buscar tinha caído no celular dele fazia exatos dezesseis minutos. O pátio onde ele estava é perto. Ele estava lá parado, sem fazer nada, junto com outros oito guincheiros.

Nunca foi sobre ele. Foi sobre as duas horas e quarenta e cinco minutos em que ninguém, dentro daquela empresa inteira, tinha como tarefa fazer aquilo acontecer.

Reforma é igual. Você contrata gente boa e assume, sem perceber, o único cargo que ninguém preencheu: o de responsável por fazer tudo chegar na ordem, no dia, com a decisão tomada antes de a pergunta bater na porta. Esse cargo não fica vago. Se você não contrata alguém pra ocupar ele, ele passa a ser seu.

Se a sua obra está pra começar, chama a gente pra conversar antes de fechar o primeiro fornecedor. A primeira coisa que a gente coloca em pé é a ordem das suas decisões. É a parte que não dá pra refazer depois sem quebrar alguma coisa.

CK, Queen B Studio.

#gerenciamento de obra#reforma de apartamento#método#contratação

CK — Queen B Studio

Sua reforma merece entrar antes do improviso
Falar com a gente

Te aviso quando sair o próximo

Escrevo sobre reforma e sobre a vida que acontece dentro dela. O que eu vejo em obra, o que eu erro e o que eu faria diferente. Sem dica de decoração e sem promoção: só o texto, quando ele existe. Deixa seu e-mail aqui embaixo que eu te chamo.

Sem calendário fixo: chega quando tem coisa que presta, e não chega quando não tem. Todo e-mail sai com link pra sair em um clique.